Friday, January 21, 2011

Tempestade (um desabafo)

Lá fora está tudo branco. E aqui dentro também. Uma tristeza sem tamanho. Acabei de ter um filho lindo, saudável, que veio pra completar a nossa família, mas o meu coração está apertadinho. As lágrimas descem dos olhos com uma facilidade imensa. Aqui nos EUA eles chamam isso de baby blues. E esse tal de baby blues é feito de tristeza e culpa. Quanta culpa.

A verdade é que meu parto foi um drama para o Thomas, e consequentemente para mim também. Apesar de estar com uma cesárea marcada para o dia 7 de janeiro, no dia 5, logo após colocar o Thomas para dormir, comecei a sentir contrações e tive que ir para o hospital sem me despedir dele. Ele então acordou no meio da noite, não me encontrou e entrou em desespero. Minha mãe ficou em casa com ele, mas o pequeno não foi capaz de entender o que estava acontecendo, ficou doente e caiu numa tristeza profunda durante os dias que estive fora. Nunca me senti tão mal em toda a minha vida. Ele ia me visitar no hospital, mas ficávamos todos morrendo de medo do Ben pegar o que o Thomas tinha (muita febre, diarréia e vômitos). Os médicos recomendaram que ele não fosse mais ao hospital e eu então resolvi que eu o encontraria no corredor e assim foi por um dia. Depois resolvi que ele ia ficar com a gente no quarto mesmo e danem-se tudo e todos.

Consegui sair do hospital antes da hora, vim pra casa cheia de dor, mas pelo menos o drama da separação ia diminuir e meu coração ia se acalmar. Ele tem andado grudado em mim desde então. Acorda várias vezes a noite gritando o meu nome, não quer mais ficar na escola... Enquanto isso o Ben tem se contorcido de gases. Não chora, o pobrezinho, mas se revira todo soltando puns e arrotando a noite toda. E eu estou exausta. Exausta não, algo bem pior que isso.

Lembro que com o Thomas também senti as tristezas do baby blues. Chorava escondida no banho, com vergonha do que estava sentindo. Nunca ninguém havia me falado disso e eu me sentia culpada por estar me sentindo daquele jeito. Se todas as mães eram super felizes, por que eu, logo eu, que sempre quis tanto me tornar mãe, estava me sentindo tão triste com o nascimento do meu filho? Aí fui conversando com as pessoas, vendo que várias amigas próximas haviam passado por isso (e também, por culpa, não comentaram nada comigo)... E finalmente passou. Com o tempo passou.

E dessa vez, não quero cometer o mesmo erro e guardar isso só para mim. Acontece e passa. Mas enquanto a gente está vivendo isso parece que não existe luz no fim do tunel.

16 comments:

Fernanda said...

Juuu, tao normal! Mas o que nao diminui em nada nossa dor, neh? Se te deixar um pouquinho menos "culpada" vou te dizer uma coisa: nao importa se vc foi pro hospital sem se despedir, mesmo se vc se despedisse o Thomas ia fazer o escandalo da vida e ia dar na mesma. Eles sentem MUITO a chegada do irmao. Eh uma ambivalencia soh: ficam contentes com esse presente e ao mesmo tempo morrendo de raiva que tem que dividir a gente. Vc nao tem que se sentir devedora `a ele; sua decisao de lhe dar um companheiro foi de vcs e nao do Thomas, a gente faz por eles, nao para eles.
Nao importa a idade, o ciumes existe, soh se manifesta de maneiras diferentes. Tudo que fazemos para prepara-los, soh minimiza o impacto daquela mudanca que se pra nos eh gigante, imagina pra eles?
Acho que pelo Thomas ser tao pequeninho, ele nao pode verbalizar tanto os sentimentos (diferente do Andre que tinha quase 4 anos quando o Tomas nasceu), entao fica bem mais dificil. Mesmo assim converse bastante. Fale pra ele o quanto vc ama ele e nunca vai deixar de amar por causa do Ben. De nome aos sentimentos dele (assim ele vai aprender a nomea-los tambem): ciumes, raiva, etc. De nome aos seus tambem... Ele estah vendo vc ficar triste tambem e eh importante ele saber o por que.
E se comecar a ficar tao overwhelming, peca ajuda querida. Nada de vergonhoso nisso!
Acho que o que vc estah fazendo eh um grande servico pra todas as maes: esse negocio de ficar pintando a maternidade como algo maravilhoso, sem obstaculos, sem contradicoes ou ambivalencias eh um desservico para todas nos...
Beijos no coracao.

Paty said...

Juju, nao tem muito o que falar depois do comentário completo da Fe!!!!! Minha irma sentiu depressão, minha prima e recentemente a minha outra prima também. Ela ate chegou a tomar remédio, e acho que o melhor mesmo e colocar para fora, e ter consciência do que você esta sentindo. E pedir ajudar se for necessário. Eu te passei meu tel, e se quiser desabafar, querida, pode me ligar ta???? NAo e fácil, eu sei disto. MAs tenha certeza que vai melhorar.... beijao grande!!!!

Carol P said...

Quanto ao Thomas , nao posso comentar pois nao passei pela experiencia, mas o comentario da Fernanda jah explica tudo.
Baby Blues eu passei por isso, sim eh horrivel, parece q nao termina. Eu jah sabia o q era e uma amiga tinha passado por isso, e conversar com ela naquelas horas foi muito bom. BB nao dura muito passa logo, e essa coisa de q a maternidade tem q ser linda sempre, eh irreal.
Pedir ajuda nao eh prova de fracasso ou incapacidade ainda mais nessas horas, e nao se pode sentir culpa de algo q nao podemos controlar.
bj

Anonymous said...

Juju,

Sua sinceridade e transparência são cativantes. É preciso coragem para assumir sentimentos tão conflitantes.

Com dores e amores, dia após dia a poeira vai assentando.

Bençãos para vc e os babies.

Betânia

Monica said...

Ai Ju, sei bem do que voce está falando, com a Luna tive baby blues e agora com Lorenzo, também. Luna nao teve ciumes, Lorenzo dorme direitinho, aparentemente eu nao teria motivos de me sentir assim, mas me senti. A lágrima corria sem motivo algum, e acordar pra mim, era sinonimo de encarar mais um dia agoniante pela frente. Ta passando agora, mas mesmo sabendo que passa, é dificl acordar com ela todos os dias. Força pra vc, e jajá vamos rir disso juntas com nossos babies nas graminhas dos parques curtindo o verão!

Anonymous said...

A gente sobrevive. E eles também. Vai passar...

mp said...

hang on there, juju. beijos...

Lily said...

Oi Juliana, sou mae de 1a viagem de uma bb de 4 meses e tambem passei por isso. Nos dias q seguiram ao parto tambem chorei escondida no banho e nao entendi porque isso estava acontecendo. Assim como a sua, a minha gravidez tb foi super desejada, entao nao tinha pq estar tao triste. Mas, do mesmo jeito que chega vai embora. O importante é saber q é normal e q passa logo. Felicidades com os seus meninos!

Carla Cavellucci Landi said...

Ai, querida, que dureza, nao? Ouca a Fe... Eu tive baby blues do Lucas (ampliado pela falta dos meus pais, que estavam com a minha irma q tbm teve bebe 10 dias antes, mas na Inglaterra... acho que quem teve ciumes ai fui eu!)... o esgotamento fisico, a falta dos passeios no comeco, os bebes que a cada hora agem de um jeito - aliados ao ja conhecido winter blues desta epoca...
Nao se culpe por nada, por ter feito ou deixado de fazer. Deixa o sentimento sair de vc, chorar ajuda tanto!! E divida, fale, peca... talvez vc esteja ainda dividida (eu me sentia um pouco assim, sera que vou amar tanto os dois como amo tanto um?) mas logo seu coracao se acalma, se Deus quiser, e tudo volta ao normal (se eh que a vida eh 'normal", haha...) qdo vc puder/quiser receber visita me avise, irei com o maior prazer! Um beijo grande para vc!

Paula Duailibi Homor said...

Ju,
SO li agora seu post.
Segura firme e saiba que vai passar. E se precisar de um remedinho, nao hesite em pedir ao seu médico.
Vai dar tudo certo.
Qq coisa que vc precisa, estamos ai.
bjos

Nane said...

Ju,

eu felizmente nao tive Baby Blues mas conheco amigas que passaram por esta angustia. Nao se sinta culpada, concordo com tudo que a Fernanda disse. Peca ajuda, algumas horinhas de sono ajudam. O Thomas vai passar desta fase como tudo que e crianca. A gente quer sempre protege-los de sentir qualquer sentimento de frustracao ou tristeza mas estes fazem parte da vida , nao tem jeito. Fale com seu medico tambem; nada como a medicina do sec XXI ! Bjs Nane

vanessa fried said...

Ju,
estou acompanhando a tua montanha russa de alegrias e choros bem de perto e posso te dizer que é intenso enquanto dura, mas depois ninguém lembra.

ja tive muita depressão na família e o mais importante na minha opinião é aceitar que isso esta acontecendo, nao é culpa de ninguém e vc esta fazendo "the best you can" - principalmente com o ben.

curta os momentos bons e se tiver a fim de visitas podemos ir tomar um cafe ou sorvete ou vodka com vc:)

muitos beijos e felicidades
vane

Fabi Saba said...

Ju, da primeira vez tmb tive baby blues, mas nada compara com a culpa que sinto agora!
Aqui esta bem, a Vi ama a irmazinha. Mas as vezes vejo que ela esta um pouco sentida, pede pr'eu por a Rebecca no quarto, ou diz que quer colo bem na hora do mama. A Rebecca se estressa, chora e acho que eh por isso que a barriguinha nao acerta. E me sinto culpada, pela Vi que perdeu o espaco sem nem saber o que esta acontecendo e pela Rebecca que nao tem um momento seu, com calma, para ser a bebezinha que eh.
Esses dias a Vi queria tirar a Rebecca que estava dormindo da sala entao comecou a fazer barulho, pedi pra ela parar e virou aquele rolo. Ela querendo de volta a sala pra brincar como quer e fazer barulho e pronto, e a Rebecca tentando dormir sem conseguir, acordando assustada com os gritos da irma ate que chorou um triste choro com o maior bicao! Mas nao posso deixar a pequenininha so no quarto o dia todo, sabe. E me senti culpada, pelas duas!
Tenho trabalhado muito com conversas para a Vi saber que eh ok se sentir assim, que ela eh muito amada e ao mesmo tempo entender que a Rebecca tambem tem seus "direitos".
Hoje de manha estava vendo apartamento com as duas, a Rebecca comecou a reclamar no carrinho que estava no corredor do apt, e a Vi foi la, salva-la, como ela mesmo diz, e ficou fazendo carinho na cabecinha dela, e nesse momento eu soube que vai tudo vai ficar bem!
Mas esse no no meu coracao ainda esta la, me deixando meio sem direcao, tentando o maximo ter o momento das duas, juntas e separadas tambem. E como vc, as vezes ainda choro sozinha no banho, mas ja aprendi que isso tambem faz parte do motherhood!
Adorei seu post. Obrigada!

Carol Barros said...

Ju,
Tive baby blues nos dois pos partos, e no segundo tomei remédio logo, e foi a melhor coisa que eu fiz. Realmente é mais normal do que a gente pensa e falar disso vai ajudar muitas mães desavisadas...
E com o tempo tudo passa, até o trabalho vai ficando menos pesado. O Dudu e a Bia tem exatamente a diferença dos seus e agora, que ele está com 4 meses, as coisas estão BEM melhores.
Bjs e parabéns
Carol

Anonymous said...

Oi, vc não me conhece mas eu sempre acompanho seu blog. Há 6 meses tive uma filhinha, já tinha uma de 3 anos e meio e me identifiquei muito com seu post. Minha filha mais velha tb ficou muito mexida com o nascimento da irmã, e eu me senti uma criminosa por ter tido outra filha. Fim de tarde era um suplício, sentia uma angústia enorme. Tb acho q depressão pós-parto é pouco divulgada, principalmente porque temos vergonha de sentir tudo isso...O q posso dizer é q tudo passa. Hj a Giulia, a mais velha, ama de paixão a maninha, e temos momentos lindos como família. Logo vai ficar tudo bem. Um beijo, Kitty.

Anonymous said...

O que aprendi nos últimos tempos sobre esta tristeza profunda(não chamaria de depressão)do pós-parto é que há muitas perdas no parto. Para a mãe algo (o bebê imaginário) é literalmente arrancado dela. E nasce o bebê real, e tudo o que vem envolvido nisso. É importante autorizar-se a sentir esta perda, faz parte do processo. Boa sorte para vc! abçs