Tuesday, July 31, 2007

Sicko


Assisti ao novo documentario de Michael Moore na semana passada. Sicko eh um filme sobre o sistema de saude americano. Eu ja havia assistido a Tiros em Columbine e Farenheit 9/11, e me surpreendi com a qualidade do novo documentario. Designer grafica critica que sou, notei uma grande melhora nas animacoes, dando um ar de qualidade ao filme. O tom critico e debochado continua sendo caracteristica marcante no estilo de Moore (criticas a Bush eh o que nao faltam!).

Moro num pais que eh famoso pela ausencia de violencia no dia-a-dia (a nao ser os ataques psicopatas como o de Virginia Tech, Columbine…), pela estabilidade financeira, pelo alto poder de compra da classe media, por pouca desigualdade social, por boas escolas publicas e por um excelente sistema de saude publico. Acreditava e concordava com todas as citacoes acima ate que me aconteceu o seguinte incidente.

Ha exatamente um ano atras desmaiei no metro sozinha. Estava tomando um antibiotico que estava me deixando super-fraca e, junto com o calor louco que estava fazendo na epoca, meu corpo nao aguentou. Entrei no vagao me sentindo estranha. Tentei me acalmar, respirei fundo. Nada vai acontecer, pensei. Procurei uma cadeira vazia para me sentar, mas todas estavam ocupadas. Respirei mais algumas vezes, nao estava melhorando. Dei uma olhada ao redor e escolhi a carinha mais simpatica para me ajudar. Era uma senhora negra, com sorriso largo. Me aproximei e disse: “Nao estou me sentindo bem Se eu desmaiar voce me ajuda?”. Foi so ela responder positivamente para que eu caisse em seus bracos. Enquanto a minha vista escurecia eu ainda pude ouvir o “ohhhhhh” em coro, tipico dos americanos quando se surpreendem com alguma coisa. Acordei umas tres estacoes de metro depois, escorada num banco, dessa vez completamente vazio para que eu nele deitasse. Um milhao de caras estranhas olhavam para mim enquanto eu abria meus olhos. Nessas horas os nova-iorquinos que naormalmente sao grosseiros e emburrados se tornam solidarios e acessiveis. Me tiraram do metro (varios policiais ja haviam sido comunicados do ocorrido pelo interfone e me esperavam), me deitaram num banco e esperamos para que eu melhorasse. Dois anjos ficaram comigo ate que o Grenfel chegasse. Aos poucos fui me sentindo melhor. Ja conseguia sentar, nao suava mais frio. Em nenhum momento passou pela minha cabeca a possibilidade de nao ir ao medico para checar o que havia ocorrido comigo. Sou do tipo que acredita que eh melhor prevenir do que remediar. So que nao achava que havia a necessidade de ir para um hospital e, quanto mais, de ambulancia. Falei para o policial que iria de taxi para la, mas ele me proibiu. Disse que eu seria obrigada a ir de ambulancia. No estado fragilizado em que estava, nem discuti.

A ambulancia chegou, os paramedicos me colocaram numa maca e da estacao me tiraram carregada sobre olhos curiosos. As sirenes soavam enquanto nos locomoviamos para o hospital. La chegando fui super- bem tratada. Atendimento de Primeiro Mundo. Medicos educadissimos, enfermeiras atenciosas, quarto limpo… Nao pude reclamar de nada.

Tres meses se passaram. A continha do hospital chegou. Ate entao eu estava convencida que o sistema de saude americano era realmente fantastico. Fiquei internada por 12 horas. O valor passou de US$23.000! So a ambulancia (que nao me deram a opcao de nao pegar) custou US$2.200. Meu seguro-saude cobriu tudo, gracas a Deus. Mas ficou no ar a pergunta: e se a pessoa nao tem seguro? Ninguem me avisou que a ambulancia custaria aquele valor e que eu teria que pagar do meu bolso…

O novo filme de Moore fala de epiosdios como esse e muito mais. Eu sou apenas uma felizarda que nao tem problema de saude serio e tenho condicoes financeiras para pagar um seguro. Grande parte da populacao americana nao tem a mesma sorte que eu. Sicko mostra a historia de varias dessas pessoas.

Hoje em dia quando penso nos brasileiros que ficam horas e horas para serem atendidos nos hospitais publicos, sinto pena. Mas sinto mais pena ainda dos americanos que sao atendidos na hora, com servico de primeira categoria, mas que, se vivos, ficam endividados para o resto da vida.

2 comments:

Cristiana said...

Que história, a sua, dessa conta! Imagino o seu susto...!

regina said...

Liette, no New Yorker da primeira semana de julho tem um artigo super bom sobre esse assunto.A autora analisa a questao sobre um prisma interessante.Quanto ao Moore, mesmo um pouco alarmista eh debochado e inteligente do jeitinho q eu gosto.
um bjo