Tuesday, March 14, 2006

Kimpossible

Uma professora meiga, que aparenta ter uma idade mais avancada do que realmente tem, mas que passa uma paz, uma sensacao de conforto incrivel. Magra e alta, bem branquinha, de olhos super-azuis. Nao posso falar do seu cabelo, pois nunca o vi solto. Vive sempre com um coque baguncado. Vestida de maneira bem casual e sentada em cima da mesa, me passou tranquilidade desde o nosso primeiro encontro.

-- Por que deixou a California? Ninguem vai embora de la. Aquele lugar eh fantastico.

Respondi e ela sorriu. Lembro como se fosse ontem.

Os meses se passaram e a sensacao boa continuava a mesma. Ela era tao doce que quando tinha que fazer alguma critica sobre trabalhos pessimos de alunos, sempre achava palavras e pontos postivos. Como isso era possivel? Como ela conseguia ser sempre tao boa, eu me perguntava. Eu, na posicao dela, ficaria brava, daria uma bronca e falaria para os meus alunos se empenharem mais. Ela sempre achava palavras meigas para classificar tais trabalhos. E eu a admirava por isso.

O semestre chegava ao fim e eu, com tantos problemas, me abri com ela em uma aula particular. Estava perdida, sozinha e conversar com uma pessoa que admirava me pareceu a deixa perfeita. Contei minhas angustias pessoais e profissionais, os arrependimentos, os sonhos frustrados. Ela ouviu tudo quietinha. Me olhava com olhos de compreensao, olhos de amiga. No final do meu desabafo ela se colocou a disposicao para me ajudar no que fosse possivel. Esse desabafo nao foi nada intencional, mas nao poderia esperar reacao diferente vinda dela. Marcamos de nos encontrar em particular outras vezes e discutir minhas possibilidades profissionais num pais onde conseguir visto de trabalho eh praticamente uma luta.

Na semana seguinte peguei o metro rumo ao Brooklyn, bairro que esta cada vez mais cobicado aqui em Nova Iorque. Seu apartamento ficava em Williamsburg, mais precisamente. Uma area cheia de galpoes que recentemente foram transformados em lofts. Caminhei durante meia hora numa das tardes mais frias que presenciei desde que mudei para ca. Ela morava num predio alto, novo, mas que fazia questao de deixar claro que nao gostava de ser novo e por isso fazia um estilo antiguinho. Toquei a campainha e la estava ela, sorridente e disposta a fazer do meu portfolio o melhor do mundo. A vista era maravilhosa: Manhattan inteira podia ser vista. A casa nao poderia parecer mais com ela: aconchegante e moderninha. Logo um cha com mel me foi oferecido para aquecer o corpo, nitidamente nada acostumado com temperaturas tao baixas.

A conversa rolou solta durante horas. Varias sugestoes foram feitas, varias discussoes sobre design e o mercado de trabalho clarearam a minha mente. Percebi que escurecia e era hora de partir. O papo rolava tao solto que nao perceber que a hora de ir embora tinha chegado era facil. Conheci seu marido, arquiteto charmoso que trabalhava em casa com alguns socios. Nao era tao simpatico quanto ela, mas americanos sao assim mesmo, fechados.

Me despedi, extremamente agradecida e rumei em direcao ao metro. Arvores de natal eram vendidas nas ruas. Criancas e pais escolhiam as que mais gostavam, e eu sentia falta disso na minha vida. Sentia falta de dividir coisas com alguem, sentia falta de cumplicidade, de beijos e abracos, de ter que argumentar e provar meu ponto, sentia falta de ser amada.

As aulas continuaram e ela se mostrava ser cada vez uma pessoa mais admiravel: paciente, inteligente, engracada.

O feriado de natal finalmente chegou e as duvidas borbulhavam na minha cabeca: o que fazer, que decisao tomar, onde morar, ate quando aguentar firme? Viajei para o Brasil e as solucoes foram aparecendo devagarzinho. Resolvi que deveria voltar para os EUA e tentar. Fazer diferente, me esforcar, esgotar as possibilidades.

Esrcevi para ela e informei que estava de volta. Ele escreveu de volta prontamente, demonstrando sua felicidade em saber da novidade. Decidi focar na minha carreira profissional e pude contar com essa professora fantastica durante minha jornada. Ela me indicou para fazer entrevistas em inumeros lugares, nos quais sempre fui maravilhosamente recebida. O visto de trabalho era o problema, mas ela nao me deixava desistir. Certo dia, durante uma semana de desanimacao depois de tantas entrevistas sem resposta, a procurei. Ela me incentivou a continuar firme mais uma vez: sua hora chegara.

E a hora realmente chegou. Encontrei um estagio genial, numa empresa genial, onde existe a possibilidade de fazer coisas geniais, com pessoas geniais. Durante o processo ela se voluntariou a escrever uma carta de recomendacao, a qual fez meus olhos encherem de lagrimas.

Na primeira aula que tive com ela depois da noticia da minha aceitacao no estagio, ela tinha uma noticia melhor para nos dar: estava gravida. Fiquei feliz em saber que ela tambem estava vivendo um bom momento em sua vida. Assim como eu, os sonhos estavam se tornando realidade. Dividimos nesse dia a alegria do estagio e do bebe.

Kim foi importante na minha vida por ter uma qualidade unica no ser humano: ser solidaria. Num momento em que estava muito triste e sozinha, pude contar com ela, que nao so me ouviu, mas me colocou para cima, fazendo meus medos virarem metas. Uma pena vai ser nao poder encontrar com essa pessoa de energia boa todas as quintas-feiras. Mas como ela disse: "We can always meet for coffee."

A palavra que melhor define a Kim eh uma que ela usa com grende frequencia ao se referir aos trabalhos de seus alunos: lovely.

5 comments:

Val said...

gostei da história, ju. mas quer dizer q o estágio saiu mesmo?!

MP said...

juju.... me emocionei... por saber, assim como vc, o que é estar longe de tudo que sempre pareceu nosso e que dominávamos... mas o mundo é pequeno para nós e, principalmente, para o seu poder e sua força interior. Fico feliz que vc tenha encontrado alguém assim para te apoiar... meu coração agradece. saudades eternas.

Re Bedran said...

Ju,
Que história linda! Estou entrando direto no seu blog agora. Torço muito para vc ser feliz profissionalmente e pessoalmente!
Beijos e saudades,

ps: Acho que vou para NY em Julho... Vc vai estar ai?

Henrique said...

Lindo Juju! Saudades de vc!!!
entra no meu fotolog quando der!!
http://ubbibr.fotolog.com/tattooed_es/

foi a minha primeira vez no seu blog, mas agora vou voltar sempre!
Beijos

Leila said...

Olá juju,
Cheguei aqui atraves da Renata, a mais nova gravidinha de NYC. =)

Adorei o seu post e não poderia deixar de te parabenizar por ser tão transparente e em se sensibilizar e conseguir compartilhar esses pequenos momentos de nossas vidas. Nem todo mundo consegue perceber a grandioszidade das atitudes das pessoas que nos rodeiam.

Depois de tudo isso posso te garantir uma coisa. Temos que agradecer as pessoas que são colocadas em nosso caminho. E tenho certeza que não foi só vc a beneficiada com esse encontro com a sua professora. As vezes o prazer da oportunidade que a gente tem de ajudar o próxima é tão valiosa quanto quem recebe a ajuda.
Tenha certeza disso.

Bjs e foi um prazer ter sido "apresentada" à vc. =)